A Curta Passagem da Existência
Lá embaixo passam mãe e filha, de mãos dadas, mochilas nas costas. A menina pequena parece ainda menor vista de cima, os grande prédios à sua volta, os carros rápidos à sua frente, a longa rua a ser atravessada. A mãe a segura em uma mão e sacolas de plástico em outra, espera pacientemente por uma chance de atravessar a rua movimentada, sente falta de uma faixa de pedestres. Quando não há perigo, ela age rapidamente e atravessa correndo, carrega a menina em uma mão, as sacolas em outra, a mochila nas costas, os sapatos apertados nos pés. E assim, chegam do outro lado, seguem em frente pela calçada, somem no horizonte. Não existem mais.
Agora passa uma moça correndo com sua cachorra, vistas de cima, parecem uma só, mesmo ritmo, mesmo olhar atento, mesmos cabelos loiros, mesmas pernas compridas e rápidas que as levam até o final da calçada. Atrás das árvores também compridas, desaparecem.
Em seguida passam estudantes de ensino médio, uniformes pretos, mochilas e tênis coloridos, cabelos estranhos, vozes altas e exageradas. Andam em grupos, de meninas, de meninos, dos dois, além dos casais apaixonados de mãos dadas, hormônios aflorados, olhos brilhantes. Todos gritam, xingam, os meninos se exibem, as meninas se isolam, parecem um monte de formigas desorientadas, vistos assim, de cima. Demoram para desaparecer, mas eventualmente se vão.
Depois passa um homem, cabeça baixa, não ereta, pescoço e ombros curvados para frente. É de estatura alta, grande, suas calças pretas combinam com os sapatos da mesma cor e o chapéu cinza que esconde o seu rosto. Seus passos são lentos, longos, se esforçam para guiar o peso do seu corpo velho. Ele caminha, outros desviam, ele fica para trás, acende um cigarro, sopra a fumaça da sua boca. Continua o seu trajeto lento, longo, reto, seu corpo se move para a frente enquanto a fumaça do cigarro marca o caminho atrás. Ele finalmente chega às escadas e desce os degraus altos, um pé de cada vez, até que desaparece na canaleta.
Outros passam, indo, vindo, dia após dia. Vistos assim de cima, parecem todos iguais, atravessando a mesma rua, caminhando sobre a mesma calçada, seguindo o mesmo caminho, não sei para onde, nem porquê. Não sei como estão, o que são, o que pensam, o que fazem, o que dói, quem amam, o que odeiam. E eu prefiro não saber, assim eu posso inventar suas histórias do jeito que eu imagino, histórias breves, mas que existiram, tiveram sua marca no tempo ali de alguma forma, até que somem e param de existir dentro da minha pequena realidade.